Capítulo 14
—
Droga! — exclamei, desconsolado — Então ele está mesmo aqui. Como é que eu não
previ isso? Deveria ter feito uma emboscada. Tarde demais!
Eu
precisava de um plano para pegar Adramelech. Correr atrás dele como em uma
brincadeira de gato e rato não funcionaria. Vinha não funcionando há décadas.
Eu precisava encurralá-lo. Seria simples se eu pudesse sentir o cheiro do
sangue dos bruxos, bastaria seguir o odor e esperar que a besta aparecesse para
saciar seu apetite macabro. Mas, inabilitado de farejar como eu estava, essa
idéia não se aplicava.
Teria
que confiar apenas nos meus olhos e nos meus instintos. E esperar sinceramente
que ambos não me decepcionassem. Talvez eu orasse ao Deus do Messias? Será que
ele poderia mesmo me dar uma resposta, ou me mostrar o caminho que deveria
seguir? Quem sabe? O pensamento me fez rir.
Rodei
durante muito tempo por entre o povo que continuava de vigília. Prestei atenção
a cada rosto, cada gesto suspeito. Era incrível a diversidade do povo que ali
estava. Mulheres, crianças. Santos e ladrões, sãos e aleijados, ricos e pobres,
compartilhando o mesmo espaço. Alguns oravam, outros se penitenciavam. Alguns
cantavam, clamavam para ter seus pedidos atendidos. Impressionante era a
palavra que descreveria tudo aquilo. Cheguei a abordar algumas pessoas, só para
me decepcionar ao descobrir que não era Adramelech.
Encontrei
muitos vampiros em meio aos humanos. Cada um a procura da salvação, ao seu
modo, mesmo que apenas pelo sangue daquelas pessoas. Deduzi que muitos deles
morreriam ao beber sangue de bruxos, sem a possibilidade de distingui-los pelo
cheiro. Apesar de eu não ser provido de tantos sentimentos, especialmente ao
que se referia a monstros como eu, senti piedade por aquelas criaturas. Afinal,
cada um deles não tinha também uma vida, ainda que não plena, mas uma existência
que, como tal, valia alguma coisa? As dúvidas deveriam ser outro efeito da
proximidade do Messias, pois eu sempre tivera plena certeza de que a sobrevida
miserável de um vampiro não valia nada.
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