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No Meu Mundo...

26 fevereiro 2016


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Capítulo 28


— Oh Deus, se você existe mesmo, se o seu filho voltou do reino dos mortos, permita que ele tenha atendido ao meu pedido — pela primeira vez em toda a minha existência, orei. E pela primeira vez me dei conta de que talvez eu pudesse sim ter tentado perdoar. Apenas tentado.
Anoitecia quando cheguei de volta a Jerusalém. Fui direto para o túmulo de Jesus, só para constatar um sem número de pessoas que rezava e dava glórias aos céus. Muitos testemunhavam a volta de parentes falecidos, e muitos mais a ascensão do homem de Nazaré.
Descrevi Kenora a cada uma daquelas pessoas, mas ninguém a vira. Perguntei-me se as ressurreições haviam ocorrido apenas em Jerusalém ou se o fenômeno se consumara em todo o mundo. Não havia resposta. Eu precisaria viajar para Elam, Kenora estava enterrada entre os montes congelados da cordilheira de Zagros. Mesmo depois de morta, eu fiz questão de mantê-la em um local seguro, bem longe do alcance do maldito Adramelech ou dos outros Primeiros. Não queria que seu corpo fosse profanado, já haviam me roubado a sua vida.
Viajei, sem me importar com uma possível fuga de Adramelech da caverna. passei dias atravessando o deserto hostil, só para em fim constatar que tudo permanecia como estava antes. Como deveria ser, as coisas estavam em seus devidos lugares. Kenora permanecia morta e com ela, minha última esperança que dera lugar a um terrível arrependimento por não ter aceitado a condição que lhe devolveria a vida. E quem sabe, me salvasse.
Mais um fardo. Era isso que a culpa acarretava. Um imenso farto que iria comigo pelo resto da minha existência.
Efrat mantivera Adramelech preso, depois de uma semana, retornei e reassumi o meu posto de guardião. A besta parecia ainda menor e mais encolhida. Mas não mais machucado do que eu o deixara. Efrat não lhe tocara.

Outra vez, descarreguei naquele corpo ancião minhas frustrações. Depois de tudo, eu retornava ao ponto inicial: precisava encontrar uma maneira de acabar com Adramelech definitivamente. No entanto, outro objetivo surgira: eu mataria o demônio que me amaldiçoou e matou minha amada, e depois seguiria em busca dos outros três. Seria o fim do reinado sobre-humano dos Quatro Primeiros. E seria através de minhas mãos que o seu legado macabro findaria.


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No Meu Mundo...

19 fevereiro 2016


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Capítulo 27


Uma última olhada para a besta e empurrei rocha, apenas um pouco, por onde coubesse uma pessoa. Se enfrentasse-os um de cada vez, minhas chances aumentavam consideravelmente.
Afastei-me e esperei, mas ninguém entrou. Preparei-me e saí. Não havia nenhum seguidor de Adramelech nas redondezas. Não vi nada, apenas senti o cheiro familiar com que me acostumara e conhecia muito bem. Efrat estava por perto, mas eu não o via porque ele não estava em pé, nem transmutado como o cão branco. Ele estava de joelhos.
— Efrat? — pousei a mão em seu ombro. Ele virou-se e eu percebi que estava chorando. Era uma cena que eu jamais imaginara presenciar.
— Asher... ele voltou... — então ele me abraçou.
Meu coração palpitou.
— E ele não voltou só. Há outros. Muitos outros, uma legião inteira.
Não acreditei. Não era possível.
— Kenora — sussurrei antes de sair correndo. Seria verdade o que Efrat dissera? Não, não podia ser!

Não me importei com a passagem aberta, com o demônio que deixei para trás. Naquela hora cheguei mesmo a me esquecer da existência de Adramelech. Apenas a possibilidade de reencontrar Kenora existia. Quem sabe o Messias, em sua infinita bondade, tivesse resolvido atender ao meu pedido?

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No Meu Mundo...

12 fevereiro 2016


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Capítulo 26


Passei aquela noite inteira criando uma estratégia e vigiando o desgraçado. Vez ou outra, quando recuperava parte das minhas forças, o agredia mais um pouco. E aquilo me fazia bem, porém não tanto quanto eu imaginara e nem tanto quanto poderia fazer se ele lutasse.
A ideia do perdão voltou a passar pelos meus pensamentos algumas vezes, enquanto eu o encarava. O ódio era sempre maior. Qualquer resquício de piedade era inválida.
De repente, me dei conta de que ele não reagia por que sabia que era justamente isso o que eu queria. Ele sabia o que eu pensava, sentia. E conhecia de ódio e vingança muito mais do que eu poderia ter suposto. Que graça tinha espancar um inimigo até quase a morte? Não era uma batalha justa e jamais teria o mesmo sabor de uma. Observei-o ao concluir esse pensamento e pensei ver um arremedo de sorriso na mandíbula estraçalhada. Claro que era apenas uma impressão.
No dia seguinte, domingo, após da metade da tarde, ouvi alguém se aproximar. Preparei-me para enfrentar o exército de Adramelech que, eu tinha certeza, estaria me esperando lá fora, assim que eu retirasse a pedra que selava a caverna. Era lógico. Fora ingenuidade minha pensar que eles abandonariam seu mestre, ou que Efrat poderia contê-los sozinho.

Efrat. Será que ele ainda estava vivo? Preocupei-me e a raiva voltou a inflamar o meu peito, misturada com a urgência de revê-lo. Decidi que precisava enfrentar quem quer que fosse que rondasse a caverna. Calculei o quão fraco eu estava e quantos vampiros poderia deter de uma só vez. Conclui que não muitos. Não me importei. Quiçá me matassem e acabassem de vez com o meu sofrimento.

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No Meu Mundo...

05 fevereiro 2016



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Capítulo 25


Fui chegando mais perto, esperando uma reação. Cerrei meus punhos, pronto para desferir o primeiro golpe. Levantei minhas mãos e deixei que caíssem com o máximo de força sobre sua cabeça. Ele nada disse, não me encarou. Esbofeteei-o na face até ver o sangue brotar e a pele ficar arroxeada, como a de um humano espancado. Ele não reagiu.
— Reaja! Vamos, desgraçado! Lute! — gritei.
Bati mais e mais, até me ver exausto. Do rosto de Adramelech quase toda a pele se desprendia. Estava ainda mais desfigurado, irreconhecível. Chutei-o, ouvindo o estalar dos ossos se quebrando. Não deixaria nenhuma parte dele inteira.
— Maldito seja! Maldito!
Não sei por quanto tempo permaneci agredindo Adramelech. Quando em fim minhas forças se esvaíram, caí aos prantos ao seu lado. Ele não passava de uma massa ensanguentada e disforme, cujos olhos opacos ainda me observavam como que para me lembrar de sua imortalidade que eu não sabia como tirar.
— Tem que ter um jeito — falei, encarando-o — e eu vou encontrá-lo. O mais difícil eu já consegui.
Mas nem eu mesmo acreditava naquelas palavras.
Uma coisa era certa: eu precisava mantê-lo preso e privado de sangue, especialmente do sangue bruxo, capaz de lhe devolver a vitalidade e a juventude. Eu pretendia ir além. Não lhe ofereceria nenhuma gota de sangue, nem humano, nem animal. Ele permaneceria no cárcere e veríamos por quanto tempo a fera suportaria o jejum.
Matutei inúmeras formas de mantê-lo preso. Imaginei poderosas correntes presas aos seus pulsos e tornozelos, mas sabia que aquilo não seria necessário no estado de inanição em que se encontrava, assim como não bastaria em seu estado normal. Ele precisaria de vigilância permanente. Eu precisaria de um pelotão de vampiros para tal.

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No Meu Mundo...

29 janeiro 2016


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Capítulo 24


Pela primeira vez eu me via em vantagem sobre a besta. Ter me afastado de Jerusalém me devolvera as forças, enquanto a morte do Messias parecia ter esvaído as de Adramelech. Eu nunca sequer sonhara vê-lo tão fraco, a ponto de se deixar levar daquela forma, com pouca resistência. E era provável que seus súditos e protetores estivessem igualmente enfraquecidos, já que Efrat conseguira contê-los. Ou, talvez parte considerável de sua hoste o tivesse abandonado.
Tranquei a entrada da caverna com rochas enormes. Não pretendia ser interrompido. Seríamos só nós dois e a escuridão. Aproximei-me, imaginando que ele me atacaria, mas contra as minhas expectativas, ele apenas se encolheu mais, tapando o rosto com uma das mãos.

Eu estava preparado para uma luta, um combate até a morte e não importava quem saísse perdedor, eu estaria satisfeito. Matar a besta era o objetivo que me fazia continuar vivo, mas eu também não me importaria de morrer e me unir de uma vez a Kenora. Ou, desaparecer para sempre.

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No Meu Mundo...

22 janeiro 2016


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Capítulo 23


Não respondi e me virei, dando as costas para Efrat. Mal pude acreditar no tamanho de minha sorte. Ali atrás, no sopé da montanha estava Adramelech. A besta se fartava com o sangue de um bruxo, o cheiro era tão intenso que senti minhas narinas arderem, como se penetradas por um ferro em brasa.
O trapo que o camuflava no meio do povo não estava lá e vi que sua face estava muitíssimo enrugada, envelhecida como eu jamais havia visto. Atrevi-me a pensar que, se meus poderes não eram os mesmo na proximidade do Messias, talvez os de Adramelech também não funcionassem.
Era minha chance, ele estava mais fraco do que nunca. Corri em disparada ribanceira a baixo, sem me importar se seria notado. Praticamente voei até o demônio e, sem pensar em mais nada, agarrei-lhe pelo pescoço e o arrastei por alguns metros, sem me importar com o bruxo agonizante cujo pescoço ele destroçara.
Ele agarrou-se ao meu braço, as unhas cravadas em minha carne. A dor despertava mais ainda a minha ira. Carreguei-o por um longo trajeto para fora da cidade, sem me importar na leva de seguidores que surgiam e eram contidos por Efrat.

Encontrei uma caverna, com uma entrada estreita e profunda o bastante para que o cheiro do sangue não fosse levado com o vento. Enfiei-me ali com Adramelech, mil formas de vingança apunhalando meus pensamentos. Queria que ele sofresse, queria desfrutar de cada lampejo de dor e de angustia. Queria mais do que tudo ver o desespero consumindo aqueles velhos olhos. Enfim teria minha tão desejada desforra.

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No Meu Mundo...

15 janeiro 2016


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Capítulo 22


— Eles voltarão mais fortes. — respondeu Efrat. Eu ri.
— Mais fortes... eu diria que muito mais enfraquecidos.
— Seus corpos, sim, mas sua fé foi renovada. Eles estão salvos.
— Você acredita mesmo? — agora eu é que não conseguia crer que meu companheiro se deixara levar por ideias como aquela — Ele está morto. Morto! E com ele, as esperanças dessas pessoas.
— Aí é que você se engana. Ele salvou essas pessoas. Mesmo que você insista que ele não fez nada além de assistir ao flagelo de todos, mas sim, ele fez algo muito maior.
— Algo maior. Morrer?
— Sim. Ele deu a sua vida por cada um deles. Deu seu sangue poupando que o sangue deles fosse derramado.
 — Efrat! Por favor! — eu ria descontroladamente. Nunca imaginei meu mentor com tamanha tendência ao romantismo. Não compreendi a sua ideia de “bem maior”. Não compreendi o que o auto sacrifício tinha a ver com o bem estar daquela gente. Eu não entendia nada de fé e do que isso representava para aquela gente que, em sua maioria, não tinha nada além dela. Era uma tolice, depois de tudo o que sentira, continuar renegando. Era uma forma de autoproteção e eu desconhecia qualquer outra.

— Um dia você vai saber. Vai entender.

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No Meu Mundo...

01 janeiro 2016



Capítulo 21

O povo ainda se aglomerava nas redondezas. Dessa vez eu conseguia distinguir perfeitamente o cheio do sangue dos bruxos, o olhar assassino dos vampiros e o odor acre dos humanos. Meus dons estavam de volta, intactos. Por isso eu soube que os rumores eram verdadeiros, o Messias se fora.
A movimentação era intensa. Muita gente partia e chegava ao mesmo tempo. Alguns por terem perdido a fé, deixavam a desesperança os consumir. Alguns ficavam por curiosidade, esperando que a ascensão outrora anunciada fosse verdadeira. Alguns tinham plena certeza de que era.
Eu fazia parte dos desolados. Voltara apenas para me certificar de que os boatos eram verdadeiros. Eram. Fim da história. Eu partiria, e dessa vez, em definitivo. Subi ao monte mais alto, talvez procurando uma fração da mesma paz que o toque do Messias me proporcionara. Não senti nada além do vento morno soprando meus cabelos.

— Nada era verdade — disse, assim que senti a proximidade de Efrat, na forma de cão. Aguardei um instante, enquanto ele tornava a ser homem ou monstro, e prossegui. — Ele está morto. Não era o verdadeiro Messias.

— Esse homem operou muitos milagres, Asher. Eu acredito que ele é o Messias.

— E agora o quê? A humanidade está a salvo? — contraí a palavra ironicamente, com nojo e desdém — Não é isso que eu vejo, Efrat. Olhe em volta... — lá em baixo, podia-se assistir a multidão frenética, andando para todos os lados — Esses pobres coitados voltarão para suas casas em pior estado do que chegaram. E o que conseguiram aqui? Sacrificar-se um pouco mais? Quantos morreram, Efrat, quantos perderam suas vidas por uma idéia ilógica? Os doentes voltarão ainda mais doentes. Os pobres, mais miseráveis. E não vi aquele homem estender a mão pra nenhuma dessas deploráveis criaturas.

No Meu Mundo...

25 dezembro 2015


Capítulo 20


Assim que o sol raiou, eu parti.

Saí de Jerusalém pelo percurso que me parecia mais fácil, Samaria. No caminho ainda encontrava as caravanas que vinham de muito longe para juntar-se ao homem de Nazaré. Em cada um daqueles rostos eu via algo incomum, os olhos transbordados de esperança. Será que o Messias também lhes cobraria uma paga que não poderiam honrar? Não, eles todos estavam dispostos a pagar o preço.

Enquanto eu os encarava, palavras ecoavam nos meus pensamentos. As dúvidas me inundavam. E se eu simplesmente fizesse o que ele me pediu? E se eu apenas tentasse? Eu sempre pensara que aquela não era uma possibilidade, mas e se? Eu precisava pensar, mas estava difícil me isolar e a proximidade das pessoas me distraia. Eu não conseguia me concentrar e precisava muito de meditação.

Por fim, segui rumo ao litoral, o mar certamente me traria as respostas. Caminhei pela costa, sentindo as ondas geladas do Mar Mediterrâneo banhado minhas pernas, as bordas de minhas vestes. De vez em quando, parava, me abaixava, molhando o rosto na água salgada como em um ritual de purificação e perdia horas mirando o horizonte, suplicando para que o sol me trouxesse algum consolo.

Depois de todo um dia junto ao mar, enquanto rumava para Alexandria, ouvi rumores de que Jesus havia sido assassinado. A notícia me esmagou como uma pedra de toneladas. Então ele estava certo? Como poderia ter ciência da própria morte, quando havia tantos dispostos a interferirem a seu favor? Senti uma dor absurda me consumindo. Voltei às pressas para Jerusalém.

No Meu Mundo...

18 dezembro 2015


Capítulo 19


Reuni coragem e me aproximei, e antes que eu pudesse alcançá-lo, vi não muito longe um brilho de tochas se aproximavam. Estaquei. O maldito traidor aproximou-se do Messias e, beijando-o, sussurrou uma palavra: mestre.

A luz dos archotes se intensificou, e eu vi uma legião armada com espadas e paus. O Messias foi levado. Eu queria impedir, mas estava paralisado. Era como se aquela fosse a vontade do próprio homem. Eu estava impotente.

Os últimos acontecimentos foram demais para mim. Minha última esperança se fora. Ainda que o Messias não fosse condenado, ainda que não fosse morto, como se dizia, eu nunca teria outra oportunidade. Restava-me desistir. Eu estava surpreso em quase ter acreditado que ele tinha uma espécie de poder. Mas se fosse verdade, se ele fosse mesmo filho de Deus como espalhava aos quatro ventos, por que não libertou? Por que seu pai permitiria que o levasse? Me senti um idiota. Quis esquecer-me dos últimos dias. Eu precisava de paz, mas supunha que jamais a teria.

Minha paz morrera junto com Kenora. Eu abandonara minhas caçadas para seguir um devaneio infundado. Um simples homem nunca poderia preencher o vazio que me ocupava. Por mais humilde e amoroso que fosse, e para mim o Messias era isso, um homem humilde a amoroso, mas ainda assim, um mero homem.

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11 dezembro 2015



Capítulo 18


Descobri o local em que o Messias se reuniria com seus amigos. Esquivei-me, como uma sombra ao entardecer e o observei. Era incrível como a simples visão daquele homem me apaziguava. Teria apaziguado a minha alma e, embora eu julgasse já ter perdido a minha há muito tempo, ele me fazia sentir que ainda restara alguma coisa, alguma parcela de alma no meu corpo semimorto.
Permaneci a espreita, esperando ouvir um discurso inflamado, um pedido de ajuda, a incitação de uma guerra, talvez. Esperei que ele pedisse ajuda, que fizesse os apóstolos incitarem o povo em sua defesa, que dissesse que, se todos se unissem, evitariam a morte outrora profetizada.
Mas em vez disso, ele pôs-se de joelhos e lavou os pés daqueles homens. A cabeça baixa, um suave sorriso nos lábios.
Aquilo me destruiu, não sei explicar o porquê. Como era possível tamanha prova de humildade, diante de uma morte que se anunciava? Eu quis salvá-lo, naquela hora. Mas era tarde demais quando vi o traidor se retirar e em momento algum suspeitei de suas intenções. Eu o teria impedido.
Era quase meia-noite quando a ceia findou. Todos aqueles homens partiram para os jardins de Getsêmani e eu vislumbrei ali uma nova oportunidade de contato. Quem sabe com a interferência de seus apóstolos, eu conseguisse o persuadir a me ajudar? Talvez ele me liberasse do altíssimo preço que eu jamais poderia pagar.

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04 dezembro 2015


Capítulo 17


Passei a maior parte da quinta-feira circulando entre as tendas, sem notar nada estranho ou específico que me remetesse ao esconderijo do meu inimigo. Observei as pessoas, tão cheias de fé. Invejei-as. Queria eu acreditar que aquele pobre homem viera mesmo como um enviado dos céus para salvar a todos. Para salvar minha Kenora. Mas eu não conseguia simplesmente acreditar. A fé era algo muito abstrato. E eu não conseguia crer em algo impalpável.

Naquela noite, Efrat me contou que o Messias se reuniria aos seus homens, os quais se denominavam apóstolos, para uma ceia. Ele profetizara a própria morte e mais, afirmara que voltaria e ascenderia aos céus. Aquilo foi demais param mim! Um santo até poderia salvar ao seu próximo e assim afirmar o bem que viera fazer. Mas salvar a si mesmo? Salvar-se e deixar ali aquele povo sofredor que ansiava por um vislumbre de salvação? Isso eu não podia conceber. Egoísmo infundado, foi a palavra que me veio a mente. Eu não conseguia compreender.

Senti raiva daquele homem e me senti culpado por alimentar tal sentimento. Eu o conhecera, eu vira a bondade da qual ele era feito. Recordei-me de seu toque em minha pele fria, como ele me acalmara, me tirara o medo e a dor. Eu quis que cada uma daquelas milhares de pessoas fosse também tocada. E, se isso não poderia acontecer, então qual era o sentido daquilo tudo?

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20 novembro 2015



Capítulo 15


A noite de quarta-feira caiu sombria. Não havia lua no céu. Não havia estrelas. Algumas pessoas muniam-se de tochas que conferiam um tom espectral a multidão. Apesar da minha visão naturalmente aguçada, aquela noite transformara-se em um jogo de luz e sombras, dificultando minha caçada. O povo se aquietara, como se aguardasse uma tragédia. Já não se ouvia os clamores fervorosos, sequer um cântico de louvor. Só murmúrios eram audíveis. Vez ou outra um choro de criança era ouvido, tornando o clima ainda mais sinistro.
Passei a noite em vigília, sem encontrar o rastro de Adramelech. No meio da madrugada, Efrat juntou-se a mim e questionou o meu progresso. Eu não tinha nada de novo para contar. Dei mais uma longa olhada ao redor e percebi o grande número de tendas improvisadas ao redor do agrupamento. Como é que eu não tinha percebido que ótimo esconderijo era aquele?
— As tendas! — Soltei.
— O quê?
— Adramelech está escondido em uma daquelas tendas. — do nada, eu tinha plena certeza do que dizia. E me senti um idiota por ter concluído isso antes. Eu revistara cada centímetro daquele chão, praticamente decorara cada um daqueles rostos e não o encontrei. Só havia uma explicação, e era muito simples, eu não entendia por que não deduzira logo.
— Você tem certeza, Asher? — Efrat olhava para as tendas. Imaginei que estivesse fazendo cálculos mentais sobre a quantidade delas e a quantidade de pessoas dentro delas.
— Eu tenho certeza. Mas não consigo monitorar a todas durante todo o tempo. São muitas. Não há movimentação anormal em nenhuma delas. O desgraçado está muito bem camuflado. E sabe bem como me despistar.
— Você é a cria de Adramelech, ele...
— Nunca mais diga uma coisa dessas! — interrompi Efrat, virando-me rápido como um felino e agarrando seu pescoço, mostrando minhas presas afiadas. — Nunca mais!
— Ou, ou, ou! Calma aí! Não falei nenhuma mentira — o soltei e afastei-me. Sabia que tinha razão, de certa forma. Passei a mão pelo rosto, na tentativa de desanuviar os pensamentos e espantar a raiva das verdades contida nas palavras de Efrat.
— Conclua seu pensamento — pedi, os punhos cerrados, pronto para ouvir o que não queria.

— Adramelech te transformou, logo, nessa nova condição de vida você é sua cria, e ele sabe o que se passa na sua cabeça. É previsível como para um pai, as molecagens de um filho.

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No Meu Mundo

13 novembro 2015



Capítulo 14


— Droga! — exclamei, desconsolado — Então ele está mesmo aqui. Como é que eu não previ isso? Deveria ter feito uma emboscada. Tarde demais!
Eu precisava de um plano para pegar Adramelech. Correr atrás dele como em uma brincadeira de gato e rato não funcionaria. Vinha não funcionando há décadas. Eu precisava encurralá-lo. Seria simples se eu pudesse sentir o cheiro do sangue dos bruxos, bastaria seguir o odor e esperar que a besta aparecesse para saciar seu apetite macabro. Mas, inabilitado de farejar como eu estava, essa idéia não se aplicava.
Teria que confiar apenas nos meus olhos e nos meus instintos. E esperar sinceramente que ambos não me decepcionassem. Talvez eu orasse ao Deus do Messias? Será que ele poderia mesmo me dar uma resposta, ou me mostrar o caminho que deveria seguir? Quem sabe? O pensamento me fez rir.
Rodei durante muito tempo por entre o povo que continuava de vigília. Prestei atenção a cada rosto, cada gesto suspeito. Era incrível a diversidade do povo que ali estava. Mulheres, crianças. Santos e ladrões, sãos e aleijados, ricos e pobres, compartilhando o mesmo espaço. Alguns oravam, outros se penitenciavam. Alguns cantavam, clamavam para ter seus pedidos atendidos. Impressionante era a palavra que descreveria tudo aquilo. Cheguei a abordar algumas pessoas, só para me decepcionar ao descobrir que não era Adramelech.
Encontrei muitos vampiros em meio aos humanos. Cada um a procura da salvação, ao seu modo, mesmo que apenas pelo sangue daquelas pessoas. Deduzi que muitos deles morreriam ao beber sangue de bruxos, sem a possibilidade de distingui-los pelo cheiro. Apesar de eu não ser provido de tantos sentimentos, especialmente ao que se referia a monstros como eu, senti piedade por aquelas criaturas. Afinal, cada um deles não tinha também uma vida, ainda que não plena, mas uma existência que, como tal, valia alguma coisa? As dúvidas deveriam ser outro efeito da proximidade do Messias, pois eu sempre tivera plena certeza de que a sobrevida miserável de um vampiro não valia nada.

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06 novembro 2015



Capítulo 13


— Não consigo farejar o sangue dos bruxos no meio de toda essa gente. Estranho, isso não deveria acontecer.
— Não é em vão que estamos desprovidos de alguns dos nossos dons. É influência da proximidade do Messias. — concordei com um aceno de cabeça, mas não analisei o caso o bastante pra dizer que acreditava.
Poderia ser que Efrat estivesse certo. Imaginei que a besta não desperdiçaria aquela chance. Encontrar bruxos reunidos em um único local não era um fato comum. Para Adramalech seria um verdadeiro banquete.
 Disfarcei-me entre a multidão, sempre envolvido em mantos e alimentando-me de cordeiros e bezerros que eram trazidos o tempo todo como oferenda ao homem de Nazaré. Não achei que, sendo ele um santo, como todos diziam que era, se importaria em perder parte dos presentes.
Alguns dias se passaram e eu não vi nem ouvi nada que pudesse me levar a Adramalech. Andei em círculos, sempre seguindo a maré de gente que andava pra lá e pra cá esperando uma oportunidade de ter um vislumbre do Messias.
Na quarta-feira eu o vi. O monstro também se escondia com mantos encardidos, e mesclava-se entre o povo. Perguntei-me há quanto tempo ele estivera ali, debaixo dos meus olhos, mas sem que eu o tivesse visto. Foi por um descuido que, depois de um esbarrão, o tecido que lhe tapava a face caíra, revelando os olhos injetados de sangue e ódio.
Não pude conter a raiva. Tenho certeza de que, naquele momento, o horror contido no olhar maligno de Adramalech se refletia no meu próprio olhar, tamanha era a minha gana de acabar com a fera de uma vez por todas.
Corri, afastando as pessoas do meu caminho aos empurrões, mas antes que eu pudesse alcançá-lo, ele me viu e puxou seu manto por sobre a cabeça, desaparecendo novamente no meio dos peregrinos.

Eu não podia deixa-lo escapar, não dessa vez. Perde-lo de vista foi como ter milhares de punhais de gelo atravessando o meu corpo. Minhas pernas fraquejaram, senti raiva de mim mesmo. Como era possível, em um instante ter ele ali, à minha mercê, e no momento seguinte nada? Era como se o monstro se tivesse desfeito junto à poeira.

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30 outubro 2015



Capítulo 12


Então era isso.
O preço era alto demais. Eu não estava preparado para pagá-lo. Aquela era uma decisão para o resto da minha existência. Eu nem sabia como seria possível perdoar, por onde começar, onde buscar o tal perdão? No fundo, não tinha certeza se, mesmo eu aceitando a condição, aquele homem poderia mesmo fazer o que afirmara. A possibilidade de ser tudo ilusão, ainda existia.
Permaneci naquele lugar por um tempo incontável. Esperava que a reposta viesse para mim de uma forma mágica, uma maneira de perdoar. Mas não, eu estava certo de que não viria e ainda assim fiquei ali contemplando o céu sob minha cabeça, esperando que uma solução no mínimo aceitável caísse das nuvens.
Anoiteceu e retornei ao acampamento. Efrat me esperava, camuflado entre seus mantos num canto escuro, um pouco afastado. Contei sobre a minha conversa com o Messias. Ele ouviu em silêncio, o semblante preocupado. Efrat me conhecia bem demais pra saber que eu não poderia fazer o que me foi pedido. E eu acreditava que ele também não perdoaria.
— O que vai fazer agora? — perguntou-me por fim.
— Caçar Adramelech. E talvez eu volte depois, quem sabe quando não houver mais a quem perdoar, eu possa convencê-lo.
— Por onde pretende começar?
— Talvez no Egito. Ou quem sabe eu volte pro norte, ainda não decidi. Vou aonde o destino me levar e eu espero que me leve direto para ele.
— Seria melhor permanecer por aqui. Nadar contra a maré nesse momento provavelmente o afastaria do seu objetivo.
— Você acha que Adramelech virá? Acho que nem mesmo ele gostaria de se expor dessa forma. Essa multidão de seguidores pode acarretar algum perigo, até mesmo pra ele. Você percebeu quantos de nós estão por aqui? E bruxos, você viu algum bruxo?

— Sim, muitos. Exatamente por isso penso que Adramelech não demorará a aparecer.

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23 outubro 2015


Capítulo 11


Voltar a ser humano? Nunca em meus milênios de vida eu havia sequer imaginado aquela possibilidade. Era tentadora.
— Qual a moeda corrente no reino de seu Pai?
— O perdão.
— O perdão? — fiquei um pouco atordoado, de nenhuma forma esperava uma resposta como aquela.
— Exatamente. Eu vejo o que há dentro de si, a sua sede de vingança, a sua dor. E eu te digo: eu posso trazê-la de volta, posso trazer você de volta, mas o preço será o seu perdão à criatura que fez isso com vocês dois. Se você estiver disposto a perdoar, Asher.
Virei-me de costas, o olhar apaziguador do Messias me desconcentrava.
Como, como eu poderia perdoar? Eu trazia aquele ódio dentro de mim há milênios. Nunca aprendi a cultivar bons sentimentos. Antes de Kenora aparecer, eu era apenas um assassino frio o cruel. E quando finalmente conheci o amor, a mesma besta apareceu para ceifá-lo junto com o último resquício de humanidade que eu conservava.
Apertei os olhos por um segundo e voltei a ver a luz dos olhos de Kenora se extinguindo para sempre. Aquela era minha lembrança mais vívida. Senti uma dor aguda atravessar meu peito. Sabia que a dor estaria ali toda vez que meus olhos se fechassem.
Imaginei encarar Kenora, viva outra vez. Como seria? Meu primeiro impulso era abraça-la, correr para os seus braços e nunca mais sair de lá. Mas e depois? Quando eu esbarrasse com Adramelech, teria força o suficiente para ignorar e prosseguir? Não, eu não era assim tão forte. E eu sabia que, se Kenora fosse ressuscitada, ele viria ao seu encontro outra vez.
Quase não suportei o pensamento, minha bruxa sendo morta de novo. Não, eu não aguentaria, mas não teria forças pra impedir. Eu falharia oura vez.
— Eu não posso. — respondi, encarando-o e esperando ver um ar de reprovação. Mas não foi isso que encontrei no fundo daqueles olhos, encontrei uma espécie de compreensão, era como se ele realmente entendesse o que se passava dentro de mim.
— Então, eu não posso te ajudar. — ele se aproximou e tocou novamente a minha mão e por uma fração de segundo a dor desapareceu.

Num lampejo, quis responder alguma coisa, xingá-lo, acusar de charlatanismo, mas não fiz nada disso, apenas observei enquanto ele caminhava de volta pelo mesmo caminho de onde viera.

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16 outubro 2015



Capítulo 10



Ele olhou-me, se distraindo de suas preces e me encarando amigavelmente, com um sorriso. Não respondi, apenas caminhei até ele e parei ao seu lado. Ele tocou-me com aponta dos seus dedos. Recuei. Sua expressão tornou-se séria por um momento, como se estivesse preocupado. Em seguida ele olhou para o céu e tornou a sorrir.
— Eu posso fazer o que você veio me pedir.
— Como sabe que vim pedir algo?
— Como eu disse, estava esperando por você. Eu posso trazer ela de volta. Só depende de você. Você crê, Asher? Acredita que eu sou mesmo o Messias, que vim a este mundo para que todos tenham vida?
— Eu não sei. — respondi sem pensar, mas me arrependi na mesma hora. Deveria ter fingido que acreditava.
— Entendo. A dúvida é natural. Mas se você não acredita, por que veio até mim?
— Eu não disse que não acredito, eu disse que não sei.
— E eu ouvi o que você disse. Mas eu ouço além das suas palavras. Eu ouço a voz que vem de dentro de você e te digo: se quer a Kenora de volta, há um preço a ser pago.
— Estou disposto a pagar o que for necessário. — continuava me olhando com aquele leve sorriso. Era difícil desviar os olhos dele, seu rosto causava uma atração quase irresistível, mas não o mesmo tipo de atração que o aroma do sangue dos bruxos me causava, aquilo era diferente, inexplicável. Contemplar seu rosto inspirava uma espécie de paz.
— Eu sei que está. E sei o quanto ela era importante pra você e o quanto você a amava. E te digo: é possível trazê-la de volta. Mas para isso, o que você está disposto a dar em troca? Moedas de prata? Moedas de ouro? Nada disso tem valor no reino do nosso Pai. Eu preciso de algo maior. E se você puder pagar o preço, posso não apenas trazer Kenora de volta a vida, mas restaurar a sua vida também.

Ele dissera nosso pai? Ponderei aquelas palavras. Eu não era um dos filhos de Deus, mal me lembrava de como era ser humano. Todas aquelas sensações, os sentimentos. Muitos dos sentimentos humanos haviam perecido quando o meu sangue esfriara em minhas veias. Basicamente, meu corpo era como o de um humano, porém um tanto mais rígido e desprovido de calor. E desprovido de compaixão.

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No Meu Mundo...

09 outubro 2015

Capítulo 9


Senti alguma coisa remexer-se em minhas entranhas enquanto Efrat me explicava sobre o seu informante, um dos discípulos do próprio Messias que, aliás, julguei também ser um vampiro, e onde eu poderia encontra-lo dali a um dia e meio. Fora rápido. Mil possibilidades cruzaram meus pensamentos em um único segundo. E se ele não fosse o Messias? Se recusasse trazer Kenora de volta? Se simplesmente não quisesse atender a um pedido de um demônio? Pela primeira vez em muito tempo, senti medo.
A terça-feira arrastou-se lentamente. Minha ansiedade trazia-me a impressão de que o tempo se recusava a passar. Tentei colher mais alguma informação relevante, mas não consegui nada além do que eu já havia ouvido antes. A legião de seguidores aumentava cada vez mais. Era de impressionar o poder de persuasão de um único homem. Era quase inacreditável, mesmo pra mim que já havia presenciado todo tipo de coisa.
 A noite foi longa e gélida. As pessoas se amontoavam na tentativa de se aquecer. Alguns não resistiam ao furor da madrugada, sem uma tenda ou abrigo apropriado. Perguntei-me onde estaria o seu Messias enquanto seus seguidores sofriam ao relento? Provavelmente em um abrigo quente e confortável.
Passei todo o dia de quarta feira sentado sobre a montanha mais alta da cidade, contemplando o sol nascer e esperando ele se pôr. Assim que os primeiros raios alaranjados do crepúsculo tingiram Jerusalém, retirei-me até o local que Efrat me indicara e lá vi o homem de cabeça baixa, de joelhos, com as mãos em posição de prece.
— Aproxime-se. — surpreendeu-me. Não esperava que tivesse sentido minha aproximação, eu costumava ser mais sutil que um felino.
Não me movi. Expectativa, medo e esperança se mesclavam dentro de mim, paralisando-me. Sua voz era suave, nada autoritária, bem diferente do que eu imaginara. Se tivesse me ordenado que me aproximasse, eu o teria obedecido, mas ele apenas pedira.

— Venha, não precisa ter medo. Eu estava a sua espera.

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No Meu Mundo...

02 outubro 2015


Capítulo 8


Voltei para Jerusalém, na tentativa de ficar o mais próximo possível de Jesus. Se algo extraordinário acontecesse, eu estaria lá pra ver. Mantive-me afastado, também não seria conveniente andar desprevenido no meio dos humanos. Havia caçadores, era quase impossível que nenhum deles estivesse infiltrado na multidão a procura de bestas. Eles sempre estavam por toda a parte e eram verdadeiros mestres na arte da camuflagem. Eu sabia, também usava algumas das suas técnicas quando caçava.
Efrat não retornou até terça-feira de manhã. Imaginei que houvesse se afastado do acampamento para se alimentar. O pensamento aguçou meu apetite e então me dei conta de que não bebia há vários dias. Não queria deixar a cidade, mas matar humanos em um lugar crivado de humanos era no mínimo imprudente. As pastagens eram uma alternativa, apesar do sangue das ovelhas ter mau gosto e ser quase intragável.
Afastei-me furtivamente. Não muito longe do acampamento avistei o primeiro rebanho. Aproximei-me do jovem pastor, que não parecia ter mais do que 13 ou 14 anos, e ofereci algumas moedas em troca de um ou dois animais. Mal conseguia me concentrar nas ovelhas quando o sangue do pastorzinho era tão tentador. Olhei em volta, avistei algumas poucas pessoas ao longe, calculei se àquela distância elas poderiam discernir o que se passava.
Estendi a mão e quando senti a pele quente do pastor tocando o bloco duro e frio que era a minha, não pude resistir e agarrei-o, envolvi com meu manto negro e arrastei-o por alguns metros até uma baixada encoberta por um leve aclive. Impossível descrever a sensação de prazer que invadiu meu corpo em contato com o sangue quente. O sangue humano fazia-me sentir que eu ainda tinha alguma humanidade em mim, que ainda tinha algo de bom escondido no mais profundo do meu ser. A sensação só perdurava até o sangue esfriar, fundindo-se com meu corpo morto.
Por alguns momentos me esqueci do Messias, do objetivo que me levara até aquele lugar, de Efrat... Por alguns segundos apenas o prazer do sangue descendo quente pela minha garganta permaneceu. Terminei o meu banquete sem me importar com o mundo em volta e depois retornei. Efrat me esperava.

— Consegui. Descobri onde o Messias estará amanhã ao por do sol.

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